domingo, 20 de junho de 2010

UM VERDADEIRO AMOR




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UM VERDADEIRO AMOR


A menina acordou assustada.
O coração de criança batia descompassado...
Levantou-se e foi para a cozinha.
O pai embriagado tinha quebrado todos os pratos e copos que estavam ao seu alcance; a mãe desesperada pedia para que ela voltasse para o quarto para ficar com seus seis irmãos, também assustados...
Mas ela queria defender a mãe.
Uma senhora jovem ainda, havia casado aos dezesseis anos, magra, cabelos compridos e sofria de bronquite asmática.
Sua vida nunca tinha sido fácil.
Viera do interior ainda pequena e já havia sido colocada para trabalhar em “casa de familia”....
O pai não a deixou estudar, para ele mulheres não precisavam de alfabetização, apenas a aprender a cuidar de uma casa.
Assim cresceu, até que conheceu o marido. Na época um belo moço fardado, em fase de servir o Exército... Muito bonito: moreno, alto. Servia em Caçapava...
Bom moço, com uma história meio complicada que o acompanhava desde a infância, o pai, um general do Exército havia abandonado sua mãe, deixando ele, o mais velho com oito anos e os outros três irmãos com um ano de diferença cada...
Para ajudar a mãe, trabalhava como engraxate, em frente a bares e padarias... onde adquiriu, tão criança ainda, o vício da bebida e do cigarro.
A menina não atendeu ao pedido da mãe e foi empurrada pelo pai para dentro do quarto, que trancou a porta com a “tramela” pelo lado de fora...
Entrou em desespero... no auge dos seus nove anos, embora quieta, não era de muitas palavras, tinha uma coragem de pedra.
Os irmãos assustados choravam baixinho e ela embalando a mais nova, falava que tudo ia ficar bem...
Num momento tudo ficou quieto e a menina teve medo...
Sempre fora muito sensível na percepção das coisas e sabia que algo estava muito errado.
Pediu para os irmãos ficarem calmos e tentou enxergar algo pela fechadura...
Estarrecida a menina gelou.
A mãe tinha sido colocada sentada numa cadeira encostada na porta e o pai... atirava facas em torno dela, tentando fincá-las na porta, que era de madeira barata.
A menina pediu aos seus irmãos que ficassem quietinhos, que não fizessem barulho e nem falasse nada, pois eles iam brincar de “não fazer barulho” enquanto ela ia buscar balinhas... os seis enfiaram-se debaixo da cama e ficaram bem quietos.
A menina abriu a janela do quarto, pulou-a e por volta das 01h30 da manhã saiu à rua para ir até a casa da avó materna, que ficava a dois bairros de distância...
Chegando à casa da avó, subiu as escadarias e bateu à porta...
- Vóóóóó!!!!! Oh! Vó!
A avó assustada abriu a porta e exclamou:
- Meu Santo Deus!
- O que você faz aqui, menina!

Então a menina desmoronou... como pedra que dissolve-se em areia, atirou-se nos braços da avó e disse entre soluços:
- Vó, o pai vai matar a mãe!

A avó, uma guerreira criada na roça, morena forte acalmou-a:
- Não minha pérola, ele não vai, Deus não vai permitir...
- Gaúcho! Arre Gaúcho!
Gaúcho, um cachorro enorme da raça “Ruski Siberiano”, obedeceu prontamente e prostou-se ao lado da avó.
- Vamos!

E foram... Aurora, a avó, a menina e Gaúcho...
A menina apertava a mão da avó, que tentava mantê-la calma...

Ao chegar na casa da menina a avó abriu o portão, adentrou ao quintal.
Chegou à porta, Gaúcho prostou-se ao lado da porta, sempre alerta e ela chamou:
- Neguinha! (apelido da mãe)
- Neguinha! Abra a porta!
O pai nesta altura, mesmo embriagado assustou-se... tinha muito respeito pela mãe de sua esposa... Italiana forte, que na verdade o intimidava...
Abriu a porta sem entender...
A mãe chorava e estava roxa, por estar com muita falta de ar...
O pai sentou-se na cadeira, abaixou a cabeça...
A avó falou:
- Neguinha! Pegue as crianças e vamos embora!
- Vamos! Anda menina!
Gaúcho rosnava...
A menina entrou no quarto e falou para os irmãos:
- Põe o chinelo, vamos para a casa da vó.
A mãe... tentou recobrar o fôlego, pegou as crianças pelas mãos, fechou a porta atrás de si e seguiu sua mãe.
No caminho lágrimas escorriam dos olhos da mãe.
As crianças em silêncio nada falavam...
A menina observava quieta e prometia para si mesma que mudaria a vida dela, de seus irmãos e de sua mãe...

As crianças acordaram num lugar diferente...
A avó serviu o café da manhã e eles foram brincar ... no imenso quintal com muitas árvores, e até esqueceram o ocorrido.
A menina séria, perguntou à mãe:
- Mãe! O que faremos?
A mãe disse-lhe:
- Vá brincar, não se preocupe...
A menina sentou-se embaixo do pé de manga e ficou observando os irmãos.
O que seria de sua mãe, deles, do seu pai...
A mãe fazia o podia para ajudar, mas não poderia separar-se, o que faria com todas as crianças?
Naqueles anos não era como agora... e ela não sabia ler nem escrever.
A avó já tinha dito que ela não sairia mais com as crianças da casa dela, mas a mãe não concordava... Não que gostasse de sofrer, mas sabia das limitações de cada um.

A menina amava muito o pai, pois quando não bebia era o melhor pai do mundo: o mais lindo, o mais inteligente...

A mãe preparava-se para ir até sua casa, quando o pai chegou...
A avó apreensiva tomou a frente:
- O que queres aqui?
Entra! Precisamos conversar... disse a avó.

O pai pediu desculpas, chorou e prometeu retratar-se...
A mãe olhava com um misto de “pena” e sem compreender, porque um vício acabava com um homem bom e com uma família...
A avó e a mãe conversaram com o pai por horas...
E as crianças já estavam perto da porta, querendo saber o que se passava...
A mãe resolveu voltar, só que prometeu que outra agressão ela iria embora de vez com as crianças...

Passaram-se os anos... o pai realmente procurou ajuda, saiu do vício e tornou-se o melhor pai e esposo.
Neste meio tempo, a menina cresceu... começou a trabalhar muito cedo, sentia o dever de arrumar a vida da mãe e dos irmãos...
Estudou, formou-se.
As irmãs também cresceram, formaram-se, constituíram família e levam suas vidas...
Um dia, a menina perguntou para sua mãe, como ela conseguiu aguentar tanta coisa, se ela sempre fora bonita e poderia até ter arrumado outro casamento...
A mãe respondeu que,se tivesse que passar tudo novamente por cada um de seus filhos e pelo esposo que a acompanhou durante quarenta e seis anos, suportaria tudo outra vez. Não por querer ver os filhos sofrer, mas por entender que quando um amor é verdadeiro ele tudo transforma...

A menina hoje uma mulher... ainda não encontrou para si um amor assim.


Kira, Penha Gonçales



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